Burnout: quando o corpo diz “basta”

“Não aguento mais” “Estou por um fio” “Cheguei ao meu limite”.
Frases cada vez mais ouvidas, que refletem a exaustão que ultrapassa um simples cansaço. A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um “fenómeno ocupacional”, resultante de stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso, caracterizado por exaustão e redução da eficácia profissional.
Numa sociedade que glorifica a “cultura do trabalho”, o burnout tornou-se quase um sinal dos tempos. Por que motivo associamos o nosso valor com o número de horas dedicadas ao trabalho? Os primeiros sintomas podem parecer inofensivos: dificuldade de concentração, irritabilidade ou noites mal dormidas. Mas, com o tempo, a sobrecarga cresce, a motivação diminui, o trabalho perde o sentido e resulta num desgaste que afeta o corpo e a mente. A vida perde a cor. Pensar no trabalho do início ao fim do dia é a receita para o desastre, e, daqui a 10 anos, as pessoas que se vão lembrar das horas que trabalhou a mais são as que sentiram a sua falta.
O burnout não é sinal de fraqueza, é um alerta do corpo e da mente de que algo precisa de mudar: na pessoa e nas organizações. Reconhecer limites, pedir ajuda e promover ambientes de trabalho saudáveis são passos essenciais para travar esta epidemia silenciosa.
Prevenir o burnout é um processo de reconexão com o essencial: consigo mesmo e com os outros. Estar atento aos sinais do corpo, falar sobre o que sente, fazer pausas, manter uma higiene de sono saudável e alimentação equilibrada, promover a atividade física, guardar 5 minutos do seu dia para um momento de meditação, dedicar tempo à sua vida social e reservar tempo para o descanso e o prazer são passos simples, mas
poderosos. Aprender a dizer “não”, valorizar-se a si mesmo, reconhecer que o seu valor não está nas horas que trabalhou e recuperar o gosto pelas pequenas coisas são gestos que podem evitar que o cansaço se transforme em colapso.
Não precisa de atingir o limite para perceber que está a precisar de abrandar. Se mudar a direção do barco, mesmo que apenas 1%, o destino já será totalmente diferente.
✍️ Artigo escrito por Dra. Inês Gomes & Dr. João Morais (Psicólogos, Souvida)
Learn MoreSaúde mental não é um luxo

“A saúde mental é a base do bem-estar geral e diz respeito a um nível de qualidade de vida cognitiva ou emocional ou a ausência de uma doença mental.” (SNS24). Ou seja, não diz respeito apenas à doença mental, mas à qualidade de vida geral. Porque consideramos, então, a saúde mental um luxo, ou apenas para algumas pessoas?
O estigma
“O psicólogo é para malucos”; “atendeste pessoas com muitos problemas?”. Estas palavras carregam uma negação: “eu não tenho problemas”, um mito que é necessário desconstruir. Aquilo que negamos acaba a influenciar, sem a nossa consciência, as nossas ações e perceções do mundo.
Se o maluco é o que tem problemas, e se reconhecermos os problemas na nossa vida, percebemos que todos os temos, e podemos concluir: afinal, somos todos normais.
O que é um problema de saúde mental?
Os problemas de saúde mental são, então, caracterizados por alterações significativas na cognição, regulação emocional e/ou comportamental, podendo causar sofrimento, incapacidade e afetar atividades sociais e profissionais. Do mesmo modo que temos doenças no corpo, podemos ter doenças da mente. Até porque a mente e o corpo são um só, e influenciam-se mutuamente.
Quem deve ir ao Psicólogo?
Qualquer pessoa que esteja a sentir dificuldades em lidar/gerir as tarefas do diaa-dia, que enfrente conflitos emocionais, problemas em relacionamentos ou, simplesmente, que tenha interesse em compreender-se e conhecer-se melhor. Diversas vezes, pensamos que só devemos procurar ajuda quando já chegámos a um “ponto de rutura”, mas não é bem assim. O acompanhamento psicológico serve para prevenir, monitorizar, organizar pensamentos, ganhar clareza sobre o que sentimos e quem somos.
A vida está repleta de desafios, e conhecer e gerir a nossa própria mente e funcionamento psicológico pode ser tão desafiante como compreender o nosso corpo. Procurar ajuda para lidar com este desafio é uma mais-valia e, em alguns casos, necessário. Porque não somos feitos para enfrentar o mundo sozinhos.
Sofre-se mais hoje?
“No meu tempo não havia estes problemas”. De facto, há vários problemas que têm vindo a aumentar, como a ansiedade e a depressão. Este aumento é devido a fatores culturais, religiosos, sociais e tecnológicos. A diminuição do sentido de vida, as crises que afetam, hoje, a sociedade, a desconexão, parcialmente, consequente da tecnologia e a exposição constante a estímulos e informação são apenas alguns destes fatores. No entanto, os problemas de saúde mental sempre existiram, e agora, para além da existência de profissionais qualificados para apoiar, há outro grande fator a nosso favor: a sensibilização. Se antes sofríamos em silêncio, já não é o caso. O que parece um aumento dos problemas é, na verdade, o aumento da abertura para falar sobre eles.
Conclusão
A única certeza na vida não é a morte. É certo que a vida é caracterizada por sofrimento, e que esse sofrimento pode ser fonte de aprendizagem. É certo que esse sofrimento nos pode ajudar a apreciar os momentos bons, e é certo que esse sofrimento dá cor à vida.
Sofrer é humano, não temos de o fazer sozinhos. Se o sofrimento é o peso que carregamos, a felicidade é a razão para o fazermos. Fale com alguém, procure ajuda se sentir que é necessário. As palavras são uma arma que utilizamos todos os dias, e o que dizemos hoje pode prejudicar o amanhã de muitos. O julgamento que direcionamos aos outros é o que aplicamos a nós, todos os dias. Não há quem sofra mais com o seu julgamento do que você mesmo.
Autores: Escrito pelos Psicólogos Clínicos da Souvida – Inês Pereira Gomes & João Pedro Morais
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